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Ontem assisti à A Pele que Habito de Almodôvar. Surpreendente. Esse é o adjetivo que mais se encaixa nesse filme, pois apesar de estar presente algumas das características principais da filmografia almodovariana, ainda tem um passo mais além, entrando no assunto contemporâneo da bioética. O espanhol jogou todo o seu clima burlesco num filme que se aproxima de um thriller dos anos 30 ou de um terror científico que encontramos nos dias de hoje (Centopeia Humana). A começar pelo título mesmo, em qual pele nós habitamos hoje em dia? Ficamos emergidos num anacronismo, onde vemos diante de nós um avanço científico e no outro, o grande asseguramento de valores tradicionais para dar justificação a certos caminhos que na verdade já são altamente sem-sentido. Porém, perduramos naquele sentimento de permanecermos presos e acomodados a uma lei que enfraquece, já que tenta calcular o incalculável: a natureza humana.

O próprio termo natureza humana já é desgastado e sem sentido, principalmente no que se refere à dicotomia: feminino e masculino. Um artifício que Almodôvar utiliza é o jogo do travesti, transex, pois como a filósofa americana Judith Buttler destaca na sua Queer Theorie, o travesti se enquadra em qual gênero? será que temos de enquadrá-lo em algum? Na ida cotidiana a um banheiro público, em qual banheiro ele  tem de ir? Masculino ou feminino? A discussão da homossexualidade é grande, pois o homem procura rótulos e, assim, foge da condição do próprio pensar humano: o acontecimento. Aquilo que acontece não está na ordem da norma, apenas se dá, é o movimento da diferença que não pode ser apreendida num processo de objetificação. Quando dois corpos se encontram acontece o aliquid, o algo, ou na linguagem deleuziana: o incorporal. O encontro da faca com a pele forma o incorporal, o corte! Este não é nem a faca e nem a pele, mas o encontro de dois corpos distintos, repletos de identidades, no qual o corte provoca a diferença que não é a sua origem e nem o seu fim, entretanto constitui na possibilidade de tudo aquilo que seja. Pois, exatamente, é o corte o movimento que ultrapassa nos vários momentos no filme de Almodôvar, cortes figurados de diferentes maneiras e modos, com intuito final de haver um corte no pensamento tradicional.

Antônio Banderas, depois de 20 anos, volta a ser dirigido por Almodôvar para interpretar o cirurgião plástico Roberto Ledgard. E como ele se sentiu confortável, fazia tempo que não assistia uma atuação dele como aconteceu nesse filme. Além do que ele simboliza o ímpeto tecnicista de construir o novo humano, ausente de maleabilidade, resistente às intempéries da vida, assim ele cria uma pele mais resistente, que dificilmente pode ser queimada e jamais será causa de uma doença via mosquitos. Do outro lado há Elena Anaya que interpreta Vera, a qual no começo fiquei imaginando que era uma pessoa, depois outra, etc. Até o momento no qual adveio a reviravolta do filme, o que não indicou sua queda, mas deixou explícito sobre as características humanas enquanto repletas de poder: loucura, obsessão, vingança. Assim, aqueles que acusam de ser um filme doentio está distante da compreensão de que no encontro daquele labirinto de almas, Almodôvar coloca em cheque o nosso pensamento de definir o que vem a ser o homem, ainda mais porque o corpo só apresenta uma parte do que nós somos e nele se esconde uma potência que todo o espírito não consegue apreender.

Portanto, A Pele que Habito, traz um novo Almodôvar com uma ousadia que se movimenta para um outro lugar, mais frio, porém lascivo, mais sério, porém sarcástico, mais azul, porém com vermelhos. Se os próximos filmes do espanhol vai manter esse caminho, não sabemos, entretanto podemos assistir hoje um filme que carrega em si todo um novo convite para refletirmos sobre o que vem a ser o homem, por mais que tentemos fugir desse pensamento. E, para terminar ressaltando que aquilo que nos apresenta na superfície não pode ser entendido como superficialidade, trago uma passagem do Deleuze na Lógica do Sentido:

“O interior e o exterior, o profundo e o alto, não tem valor biológico a não ser por esta superfície topológica do contato. É, pois, até mesmo biologicamente que é preciso compreender que ‘o mais profundo é a pele’. A pele dispõe de uma energia potencial vital propriamente superficial. E, da mesma forma como os acontecimentos não ocupam a superfície, mas a frequentam, a energia superficial não está localizada na superfície,  mas ligada  a sua formação e reformação” (p. 106).