Tags

, , ,

Há um caminho da humanidade que se chama zona de conforto que as pessoas invariavelmente procuram tal zona. Entretanto, ela varia de pessoa e o que para uma está nas mil maravilhas para outras ainda falta outras para poder se satisfazer e se acalmar. Assim, até atingirmos a zona ficamos presos numa briga de diálogos, de socos, tiros, etc. Tudo na expectativa para que as coisas fiquem de maneira agradável, do jeito que você quer! Não como a coisa tem de ser, mas altamente relativo a sua vontade. Quando alguém exorta posições que venham a desagradar o numero de pessoas conformadas com as suas vidas e que sua zona de conforto depende daquilo, então esse alguém é levado ao último patamar da humanidade, sendo rotulado de inúmeros nomes que venham hostilizá-lo. No Brasil há inúmeras de coisas que incomodam as pessoas deixando-as pensativos porque aquele grupo fala daquele modo, se veste, fica feliz por ser daquele jeito e não por esse. Dentro desses inúmeros modo há o ateísmo. “O ateu é uma pessoa que atira no próprio pé, como podem negar aquilo que os fundamenta?” assim questiona os sensatos. Porém e se na verdade, o próprio fundamento já não denota uma mentira?

Essa questão não pode ser levantada pelos sensatos quanto mais serem respondidas por eles. De qualquer forma, a procura de uma razão por aquilo que nos aparece é exigida por aqueles que procuram uma forma para amenizar os entraves que a vida apresenta, assim, a mera possibilidade de cogitar a presença do acaso como sentido maior para os ordenamento do mundo é refutado de maneira violenta. Um desses modos de precaver o homem de uma posição no cosmo de maneira privilegiada e com as coisas ao seu redor regidas por uma ordem supra mundana, condiz ao ateísmo. O ateísmo se condiciona a partir do a-privativo, que nega o theos, uma ordem transcendente, em melhor palavra divina. Há uma confusão em estabelecer o ateísmo em uma crença (no sentido religioso do termo) negativa, onde àquilo que nega só ratifica a afirmação da sua existência, quando o cerne da questão está distante desta tentativa tosca de fugir da não crença em deus. Pois, o ateísmo é muito mais uma posição do indivíduo frente ao mundo, quer dizer, a ordem possível do mundo, visto que se posiciona como se para tudo que nos cerca não há uma razão transcendente por trás pela qual não somente explica o mundo, mas também interfere em nossa vida. Claro que mesmo há ateísta que apresenta a explicação a partir das leis da física e sustenta tudo a partir disso, não deixando espaço para o erro da física. Mas, a grande coisa é a posição do indivíduo no mundo, não precisa explicar que suas ações são dirigidas por ordem uma lei vinda de uma crença milenar que com o passar do tempo não apresenta qualquer tipo de evidência.

Outro ponto, é o questionamento de que o ateu não pode provar que não há deus. Ora, só podemos provar a existência de algo e nunca a não-existência, pois podemos provar que cavalos não possuem chifres porque até hoje todos os cavalos não possuem chifres, isso é dado por David Hume no sentido da experiência: todos os cisnes são brancos até o momento que encontramos um cisne negro. Do mesmo modo, não posso provar que duendes não existem, e sim a partir da experiência e das repetições cotidianas não nos deparamos com entes polegares que moram no fim do arco-íris. Assim a prova tem de vir daqueles que acreditam que haja um deus que criou as coisas em sua ordem e medida. Já que condicionar a prova remetendo ao fato tacanho das coisas que se encontram ao nosso redor não pode vir do nada, ou melhor questionar quem criou todas as coisas, esquecem que a pergunta: é mesmo necessário um criador? É altamente válida e inúmeras teorias filosóficas sustentam tal questionamente, como por exemplo, Heráclito anterior a filosofia, ou seja um pensador originário (nos dizeres heideggerianos), que escreveu o seguinte:

Este mundo, o mesmo em todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o criou, mas sempre foi, é e será, fogo sempre vivo, acedendo segundo a medida e segundo medida apagando.

Portanto, o ateísmo não pode ser condiciona ao mero valor de crença, antes a uma posição humana frente ao universo, onde o trata como uno e não necessitando de um deus qualquer para poder dar sustentação a ele. Para terminar duas coisas: o ateu não fica doutrinando as outras pessoas para que se tornam ateus, e sim procura através das suas posições teóricas ou práticas que não necessitamos de uma entidade supra terrena para legitimar nossas, somos bons ou más porque somos não por desvirtuar alguma norma transcendente. Quem doutrina o ateísmo através de “provas” é um religioso (no pior sentido do termo). Segundo, não quer dizer que um sistema político que se diz contra religioso seja ateísta, pois ele se aproxima do herético, do anticlerical, ou quer absoluto poder ao estado. Ressaltando mais uma vez, o ateísmo é uma posição do indivíduo no cosmo, não se restringindo a questão política, religiosa ou econômica e por último, não é porque seja ateu tenha que sustentar todas as posições da ciência como se ela agora desse todas as respostas, não! Nem todas as nossas aflições podem ser respondidas ou solucionadas. Ainda bem que seja assim, porque só vem a afirmar a nossa liberdade de sermos humanos no mundo provido de fundamento último aquilo que nos apresenta. E como escreve Dostoievsky na voz do Ivan Karamazov:

…que em toda a face da Terra não existe terminantemente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu amor na Terra, este não se deveu à lei natural mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade […] destruindo-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo […] não haverá mais amor, tudo será permitido, até a antropofagia […] concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior. […] Pois quando a humanidade, sem exceção, tiver renegado Deus (e creio que essa era virá), então cairá por si só, toda a velha concepção de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e começara o inteiramente novo. Os homens se juntarão para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente à felicidade e à alegria neste mundo. O homem alcançará sua grandeza imbuindo-se do espírito de uma divina e titânica altivez, e surgirá o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ciência, uma natureza já sem limites, o homem sentirá assim e a cada hora um gozo tão elevado que este lhe substituirá todas as antigas esperanças no gozo celestial. Cada um saberá que é plenamente mortal, não tem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreenderá que não há razão para reclamar de que a vida é um instante, e amará seu irmão já sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfará apenas um instante da vida, mas a simples consciência de sua fugacidade reforçará a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperança de um amor além-túmulo e infinito.